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esta Lua é Cheia
prenhe de astros e constelações
transborda de Luz, rasga-se no próprio parto
navega sem saber se o que pisa é mar, rio ou chão
sabe qual é o seu destino
falta-lhe o caminho
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Texto: Ana Reis Felizardo
Fotografia: João Pego
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Nasces e choras.
Perdes a conta dos dias de lágrimas.
Dos dias sem chão.
Perde-se o nome dos lábios dissolvidos no vinho que bebes
e desejas beijar.
Soltam-se as amarras que te impedem de voar
e renova-se a sede.
Irá despedaçar-se a marioneta?
Ou dançará nas nuvens, o trapezista sem rede?
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Texto: Ana Reis Felizardo
Fotografia: João Pego
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A pequena ave acordou com a voz do vento.
Segredava-lhe:
- Voa!
Deu umas tantas piruetas no ar.
Depois, o vento uivou:
- Mais longe!
Engoliu em seco, engoliu o coração que se preparava para saltar.
Atreveu-se a olhar mais longe.
- Mais longe!
E viu rochedos imponentes.
- Mais longe!
E viu mar.
- Mais longe.
E viu céu.
A pequena ave fechou os olhos e sem medo voou.
Voou mais longe!
Rumo ao horizonte.
Naquela linha não sabia o que ia encontrar,
se céu, se mar.
O vento levava-a ao som da palavra:
- Voa!
Para trás ficou o ninho,
a pequena aldeia de casas brancas.
Suspirou sem saudade.
Mergulhou no horizonte.
O céu engoliu o mar,
E o mar engoliu a terra,
Apagou-a da memória dos homens,
das casas, dos quintais,
dos risos distantes.
Agora só se lembra das janelas
que deixou
abertas.
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Texto: Ana Reis Felizardo
Fotografia: João Pego
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cobre-nos a velha manta
espessa
negra e vermelha
a mesma que abafa o universo
em horas de tormenta
esquecemos as cores e o ar que bebemos
queimamos por dentro
para nos apagarmos na onda
incendiamos caminhos
abrindo a pele
somos nós, mar adentro
navegando
na velha manta
a mesma onde guardamos os odores
e os sabores
esquecidos no abrigo
das horas ébrias
de desejo
e de sexo
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Texto: Ana Reis Felizardo
Fotografia: João Pego